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Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 09

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 09
Title: Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 09
Release Date: 2006-05-06
Type book: Text
Copyright Status: Public domain in the USA.
Date added: 25 March 2019
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The Project Gutenberg EBook of Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo IX, byAlexandre Herculano

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Title: Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo IX

Author: Alexandre Herculano

Release Date: May 6, 2006 [EBook #18330]

Language: Portuguese

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OPÚSCULOS POR ALEXANDRE ***

Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),Nuno Lopes (Projecto Enclave) and edited by Rita Farinha

OPUSCULOS

TOMO IX

Proprietários e editores: José hastes & C.^a—Typographia da Antiga Casa
Bertrand, Rua du Alegria, 100—Lisboa, 1909.

Opusculos

POR
A. HERCULANO

TOMO IX

LITTERATURA

TOMO I

*Antiga Casa Berfrand—JOSÉ BASTOS & C.^a—Livraria Editora*

73, Rua Garrett, 75—LISBOA

Reservados todos os direitos de propriedade. Para o Brazil, nos termosdo ajuste feito entre Portugal e aquelle paiz em 9 de Setembro de 1889,mandado cumprir pelo decreto do Governo Imperial de 14 de Setembro domesmo anno.

ADVERTENCIA

Na collecção dos tomos de opusculos de A. Herculano ainda até hoje nãoestava representado um dos grupos em que elle a dividiu—o delitteratura. O presente tomo vem remediar esta falta embora com aprobabilidade de ficar isolado na divisão a que pertence. Os avulsoslitterarios do nosso escriptor não são todos da mesma índole. Com algunsd'elles, os de caracter poetico, resolvemos coordenar um volume appensoao grupo dos romances e lendas e que está prompto a entrar no prélo. Foidepois d'esta selecção que passámos a apurar entre os demais osadoptaveis para tomos de opusculos. Taes nos pareceu deverem ser os queconstassem de historia, theses, controversias e juizos litterarios.Nestas condições a obra do escriptor era bastante para que elle tivessecalculado formar com ella dois tomos pelo menos e por certo mais, seaproveitasse interessantes cartas que no genero escrevera. Accresce quesendo a maioria d'estes artigos dos primeiros tempos da vida litterariado auctor, elle proprio dizia tencionar acompanhá-los de um exameretrospectivo e ampliar alguns como em parte nelles indicara. É também oque se deduz do plano geral da publicação exposto na advertencia do tomoI. Mas dos trabalhos complementares conducentes a esse fim, e que oauctor de dia para dia adiava para horas de aprazivel remanso deespirito, não achámos vestigios nos papeis d'elle. Apenas nalguns dosartigos recolhidos neste tomo estavam indicadas breves correcções delinguagem, das quaes introduzimos nas cópias enviadas para o prélo as deimmediata intelligencia. E ainda essas correcções, tão leves que hão-depassar despercebidas, seriam apenas preparativos de revisão, segundo omethodo adoptado pelo auctor,—meros signaes para marcar os logares elembrar o sentido em que teriam de ser feitas as definitivas. Estes osmotivos pelos quaes é provavel que tenhamos de limitar-nos ao presentetomo em materia de litteratura, sem todavia podermos assegurar que aoselementos que ficam de reserva, não venham de futuro junctar-se outrosque por novas pesquisas possam apurar-se, e tornem possivel o seguimentodo grupo.

Dada, porém, a abundancia de original de que dispunhamos para este tomo,conseguimos organiza-lo de modo que os elementos que encerra quasiconstituem um todo homogeneo de doutrina, representando em globo, semembargo da falta de ampliações que haviam de enriquecê-lo; como que asgeneralidades de um curso de litteratura moderna, prevalecendo a liçãosobre litteratura patria. E não admira que assim succeda attendendo árelação íntima dos artigos escolhidos com o ideal da epocha em que foramescriptos, e que dominava o espirito do auctor. Aspirava A. Herculano aencaminhar por meio d'elles a revolução litteraria que nascera para nóscom a recente mudança de instituições politicas e que, sob o ponto devista poetico com intenso brilho fôra iniciada por Almeida Garrett, comos dois poemas D. Branca e Camões. D'ahi a feição doutrinal eharmonica que o tomo apresenta. Sabem os leitores com que riqueza evariedade de monumentos concorreu A. Herculano ao lado de tantos outrosprivilegiados escriptores para engrandecer a imponente phase das nossasletras que desde então se foi desenvolvendo. Juncto a esses monumentosvem, pois, occupar agora o logar que lhe compete, a propaganda com queelle os precedeu e os acompanhou, naquella esperançosa epocha derevivencia nacional.

Nas paginas que precedem os artigos vão indicadas as datas em que estesvieram a publico e as folhas de onde foram trasladados. Mas desde jáconvém advertir que trouxemos os dois primeiros da folha quinzenal ORepositorio Litterario, publicada durante alguns meses de 1834 a 1835na cidade do Porto, contando o auctor vinte e quatro annos de edade. Nosdois annos anteriores havia elle arriscado a vida em mais de vintecombates do cêrco da cidade, em todos em que interviera o gloriosobatalhão a que pertencia de Voluntarios da Rainha. Segundo resamformais attestados, e era proprio do altivo caracter que elle nuncadesmentiu, em todos esses combates dera aos companheiros de armasexemplos de inexcedivel destemor, de arrojada bravura. Levantado o cêrcodespia os trajos de soldado e quando se lhe afigurou terminada a luctapelas armas, surgiu cheio de enthusiasmo, revelando inesperadosconhecimentos e como vulto dominante do Repositorio, a pelejar no campodas idéas. Pela leitura dos dois artigos transcriptos d'essa folha, seajuizará da originalidade e vigor com que deu começo á propagandaexposta no discorrer do tomo. O primeiro descreve o estado geral danossa litteratura naquelle periodo de transição, visando norteá-la á luzdas novas aspirações e exigencias sociaes, e nas varias fórmas em queella tinha de manifestar-se. O segundo trata da poesia em especial, ecomo se o auctor já então quisesse dar medida do poderoso engenhoanalytico de que era dotado, ao passo que vai explanando comextraordinaria erudição e lucidez a famosa questão dos classicos eromanticos, vai tambem deduzindo e conglobando as bases de uma altapoetica de concepção propria, com o pensamento de afastar o genionascente das aberrações de uma e outra d'aquellas seitas, e de o guiarpara a fecunda desenvolução litteraria em que meditava.

A par d'estes artigos abria o novel escriptor nas columnas doRepositorio, com a descripção das escholas de ensino elementar daPrussia, a campanha em parte descripta no tomo VIII de opusculos, e quenão mais abandonou, em prol da instrucção popular. Provocando oconfronto da excellencia d'aquellas escholas com a obscuridade dasnossas, frisava por esse meio o alcance do grave assumpto, pondo emrelevo perante os homens cultos e aquelles a quem competisse dirigir osdestinos da nação, o maior dos obstaculos que tinham a vencer paraassegurar o bom exito das instituições liberaes. O absolutismo politicofôra derrubado pelas armas e pelas geniaes concepções legislativas,arremessadas contra elle em som de guerra. Chegava o momento de lançarnovas e grandes idéas, de suggestionar os espiritos para que sobre osescombros do derrocado edificio se erguesse gradualmente o da liberdadee da civilização. Era com o profundo sentimento, a nitida visão d'estaimperiosa necessidade social, que A. Herculano se estreava comopropagandista no memoravel periodico portuense.

Maio de 1907.

O coordenador.

Qual é o estado da nossa litteratura?

Qual é o trilho que ella hoje tem a seguir?

*REPOSITORIO LITTERARIO*

1834

Qual e o estado da nossa litteratura?

Qual é o trilho que ella hoje tem a seguir?

Estas duas perguntas pedem nada menos do que a dolorosa confissão dadecadencia em que se acha em Portugal a poesia e a eloquencia, e oencargo difficultoso de indicar os meios de melhoramento no ensino e noestudo d'ellas. Sem pretender que sejam as unicas, nem as melhores,exporemos a serie das nossas idéas sobre este duplicado objecto.

A convicção de uma verdade litteraria produziu nos seculos XVI e XVII umerro na Italia, que, extendendo-se á Hespanha e a Portugal, transviou dalegitima direcção todos, ou quasi todos os escriptores da epocha chamadado seiscentismo. Sentiu-se que a metaphora, a mais bella de todas asfiguras poeticas e oratorias, a mais repetida, a mais necessaria mesmonos discursos communs da vida, abundava por isso nos bons escriptoresclassicos e modernos, que já nesse tempo illustravam a Europa: viu-seque as passagens bellas ou sublimes de Horacio, Pindaro e Virgilio, deDante e Ariosto, deviam-lhe em grande parte a sua belleza e sublimidade,e isto era certo; inferiu-se d'ahi que a metaphora era o principal etalvez o unico meio da poesia e eloquencia, e que ella devia revestirtodas as imagens e sujeitar ao seu imperio todos os generos, todos osestylos, e isto foi um erro: a vertigem metaphorica se apossou dospoetas e oradores, e, por uma consequencia natural, o fundo das idéasesqueceu e só se olhou para as fórmas: á sombra d'esta mania prosperavamos conceitos e as agudezas, chegando as letras a caír numa barbarie, quetanto mais irremediavel parecia por ser filha da civilização litterariajá exaggerada. O Zodiaco soberano, Os crystaes d'alma, A Fenixrenascida e outros muitos escriptos d'esse tempo, são lamentaveismonumentos da corrupção de gosto a que chegou Portugal no principio dodecimo oitavo seculo.

Porém o mal não foi sem remedio, e os membros da Arcadia fizeram volveras letras á severa singeleza das puras fórmas da Grecia. Muito ae deve aGarção, Gomes e Quita; mas ninguem tanto como Dinis mostrou asuperioridade do genio e do gosto que caracterizaram a segunda metade doseculo XVIII. Dando os seus principaes cuidados á poesia chamadapindarica, genero difficil pelo audaz das figuras, pelo gigantesco dasimagens, elle soube escapar aos defeitos e frioleiras do seiscentissimoque bebera na eschola, em composições nas quaes era mui facilintroduzir-se o mau gosto; e ainda que Quita e Garção tentaram o mesmogenero, em nosso intender, Dinis não foi emulado. Capaz de todos ostons, no burlesco, no pastoril, no dithyrambico, nos deixou apreciaveisexemplos, e as suas dissertações sobre a poesia campestre são dictadaspor um grande conhecimento da arte, ainda que não excedam em merecimentotheorico as annotações de Gomes ás proprias poesias, nem os trabalhos deFreire e posteriormente de Barbosa e Fonseca sobre as poeticas deAristoteles e Horacio.

Entretanto nenhum dos poetas e litteratos do seculo de José I olhou asletras de um ponto de vista eminente. Similhantes aos escriptores doseculo de Luiz XIV, foram muito eruditos, mas pouco philosophos, e assimo caracter das duas litteraturas é a confusão dos principios absolutoscom os de convenção. Cingindo-se quasi cégamente á auctoridade dosantigos, miudeada e explanada pelos commentadores, a sua obedienciaillimitada a alheias opiniões contribuiu muito para a posteriordecadencia. A impertinente questão dos archaismos e neologismos veiutomar o logar das discussões da Arcadia e essa occupação dos meiostalentos e da meia instrucção, influindo sobre objectos maisimportantes, viciou e acanhou toda a litteratura. Se as notas, que sobrepalavras e phrases Francisco Manuel ajunctou ás suas poesias, fossemdedicadas a coisas, quão ricas messes nós colheriamos do saber d'estehomem! Mas infelizmente não foi assim, e a polemica suscitada sobre omerito do immortal cantor dos Lusiadas, pelos insultos que contra ellevomitou o orgulhoso auctor do gelado Oriente, mostraram a quemesquinho estado tinha a critica chegado em Portugal. Parte dos reparosque Macedo copiou dos criticos franceses ficaram sem cabal resposta,porque os systemas estheticos mais liberaes e philosophicos que o dosantigos, e o da eschola de Boileau, eram em geral desconhecidos entrenós, e estamos persuadidos de que o juizo a respeito do tão grandequanto infeliz Camões ainda resta a fazer, apesar da abundancia deescriptos que sobre este objecto se publicaram.

Emquanto assim entre nós a critica se apoucava, um sentimento vago dedesgosto pelas antigas fórmas poeticas, a influencia da philosophia nalitteratura, a necessidade que sentia o genio de beber as suasinspirações num mundo de idéas mais analogas ás dos nossos tempos, eemfim, varias outras causas difficeis de enumerar, começaram a crear naEuropa uma poetica nova, ou, digamos antes, a fazer abandonar os canonesclassicos. A Alemanha foi o foco da fermentação, e foi lá que osprincipios revolucionarios em litteratura começaram a tomar desde a suaorigem uma consistencia, e a alcançar uma totalidade de doutrinasmethodicas e consequentes, não dada, ainda hoje, ao resto das nações. Lánão havia a luctar com a gloria nacional para a introducção de novasidéas, porque os monumentos da eschola afrancesada de Opitz não honravamdemasiadamente o dogmatismo intolerante do seculo de Luis XIV,impropriamente chamado classico, e Bodmer e Breitinger deram começo árevolução ousando preferir a poetica de Shakspeare e de Milton á deRacine e de Boileau; comtudo as opiniões na Alemanha teem-se desviado,em parte, d'esta direcção e as idéas

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