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Sociologia Chinesa_ Autoplastia

Sociologia Chinesa_ Autoplastia
Title: Sociologia Chinesa_ Autoplastia
Release Date: 2008-12-02
Type book: Text
Copyright Status: Public domain in the USA.
Date added: 25 March 2019
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SOCIEDADE DE GEOGRAPHIA DE LISBOA


SOCIOLOGIA CHINESA


AUTOPLASTIA

TRANSFORMAÇÃO DO HOMEM EM ANIMAL
ESTIOLAMENTO E ATROPHIA HUMANA, CASOS DE TERATOLOGIA.

PELO

DR. MACGOWAN


NOTA DESTINADA Á X SESSÃO

DO

CONGRESSO INTERNACIONAL DOS ORIENTALISTAS

PELO TRADUCTOR

DEMETRIO CINATTI

S. S. G. L.

Logotipo da S.G.L.

LISBOA
IMPRENSA NACIONAL
1892

AUTOPLASTIA1

TRANSFORMAÇÃO DO HOMEM EM ANIMAL NACHINA

Proclamações officiaes e noticias publicadas pelas folhas periodicassobre a recrudescencia do roubo de creanças, nesta (Kuangsi) e nasprovincias adjacentes2revelam dous factos importantes da Sociologia Chinesa. Consiste o primeirona crença de que os que roubam gente possuem certas drogas que,administradas ás victimas, as põem sob completo imperio da vontade dopropinador, assumpto de que não vou agora occupar-me. O segundo factoinforma-nos que as drogas produzem a aphasia tornando o individuointeiramente incapaz de fallar, e, estiolado este, pela reclusão em logarcompletamente escuro, ou deformado por mutilação, faz-se d'elle objectoappropriado para os pelotiqueiros exhibirem ao publico. Mas, ainda queestes flagellantes crimes sejam offensa capital, não são susceptiveis decompleta repressão. Infelizmente estes actos de inhumanidade praticados nohomem pelo homem, apenas indicam uma parte das atrocidades praticadas pelosroubadores de gente. De todas as torturas que o odio politico e religiosotem inventado, nada excede o queimar e esfolar em vivo. Mas se a extracçãoda pelle se fizer por operações successivas, parte por parte, como se fazao individuo roubado para o transformar em homem animal, os soffrimentosdevem ser agonisantes, alem do que a imaginação pode conceber. É o queacontece quando a pelle humana se remove para a substituir pela do animal,urso ou cão, porque em tal caso só pequenas secções se podem praticar decada vez, afim de que o individuo possa sobreviver.

Que longo periodo não é necessario para conseguir o processo completo detransformar o homem em animal?! Que martyrisantes torturas lhe nãoinflingem antes de adquirir a apparencia e condição do bruto?! Oembrutecimento está longe do seu fim quando a pelle do animal se adaptou ácarne do homem.

Falta ainda emmudecel-o, destruindo-lhe as cordas vocaes, o que seobtem, affirma-se, pelo emprego de carvão. Não é preciso destruir-lhe afaculdade de ouvir, mas a victima é sujeita a um regimen muito egual ao quesoffreu Gaspar Stanse. O Hupao3 descreve o apparecimento de um homemtransformado artificialmente em besta, que foi exhibido no Quiangsi. Todo oseu corpo era coberto de pello do cão, que fôra substituido pela suapropria derme ou verdadeira pelle. Andava de pé (muitas vezes são mutiladosde forma que só possam andar com as mãos no chão) podia pronunciar uns sonsinarticulados, sentar se, pôr-se de pé, fazer cumprimentos á chinesa e,emfim, conduzir-se em geral como um ser humano. O magistrado, tendo ouvidofallar no homem animal, deu ordem para que o trouxessem ao seu palacio,onde o felpudo do corpo e o todo selvagem causaram admiração e terror.«Sois vós um ente humano?» perguntou o magistrado ao extraordinarioindividuo, que respondeu com um aceno affirmativo de cabeça. «Podeisescrever?» Novo aceno de cabeça affirmativamente feito, foi a resposta; masquando lhe deram um pincel4 não poude escrever por não poder pegar-lhe.Lançou-se, porém, cinzas no chão, e o homem-cão, abaixando-se, escreveucinco caracteres que representavam o seu nome e a terra da sua naturalidadeChangtung. Inqueritos subsequentes revelaram o facto de haver sido roubado;o seu captiveiro, e as horriveis operações de que fôra victima. O seu donofoi punido, é claro, com a pena capital, porque declarou que só um d'entrecinco sobrevivera á operação.

Conhecem os leitores não professionaes a operação denominada taliacoção,porque a terão lido nas encyclopedias. O seu nome é tirado de Taliacotius,cirurgião italiano do seculo XVI. Consiste em transplantar a pelle, comoquando se substitue o nariz pelo tegumento da testa ou pela carne do braço,operação particular a que se chama rhinoplastia. Ainda que não haja noticiade que os chineses praticassem esta arte, sabiam que a pelle de um animalpode ser adaptada a outro que haja sido escoriado para esse fim, muitoantes da anatomia e cirurgia serem estudadas e ensinadas em Bolonha.

Menos horrivel, se bem que espantosamente cruel, é a revelação de umamonstruosidade artificial que encontro entre as minhas notas teratologicase que, consiste em fazer um parasita humano pela adhesão de uma creança aum homem, thorax com o thorax, formando-se por assim dizer uma epiphitoanimal. A união produz-se pela extracção da pelle dos dois pacientesligando-os depois de maneira que as regiões escoriadas fiquem em contacto,até se effectuar a adhesão pela ligação vascular5.

Assim se preparam as infelizes creaturas para se mostrarem ao publico,conservando-se a creança suspensa por fitas appropriadas. A privação de luzpor alguns annos dá ás creanças uma apparencia mui curiosa, especialmentequando lhes destroem a voz por meio de drogas e se lhes manteem aexistencia com dieta particular. Um bonzo do Hingpo diz a tradição,sujeitara uma creança roubada a esse tratamento para ser apresentada comoBudha. O estiolamento era completo, porque nem um raio de sol chegava aoindividuo, que parecia de cera quando tirado da cella subterranea em quepermanecera, o que fazia imaginar os espectadores que se sustentava só detoucinho e assucar branco. Curvado e de mãos postas, apresentava aapparencia de um monge em extasis e absorvido em contemplação.Conservando-se sempre nessa postura, não ouvindo nunca uma unica voz a nãoser a do seu guarda, tornou-se um simples idiota, quasi um vegetal. Saciadaa curiosidade publica, minguaram as offertas, e portanto fixou-se um diapara a sua cremação.

Comtudo, um resto de intelligencia que conservava ainda essedesvitalisado cerebro, deixou-lhe comprehender que ia ser queimado, o que omagistrado do logar evitou, porque vendo deslizar uma lagrima d'aquellesolhos sem brilho, ao longo das faces immoveis, descobriu a piedosa fraude epor subsequente inquerito os factos acima narrados. O bonzo escapou pelafuga e o templo foi derrubado. Uma illustração das atrocidades que ás vezesaccompanham o roubo de creança, foi descoberta em Changhae pouco tempodepois da abertura d'esse porto. Foi ali exhibida uma creança cuja cabeçaindicava ter chegado já á maioridade, tendo porem o tronco o os restantesmembros dimensões infantis. O atrophiamento tivera logar pela conservaçãodo individuo dentro de uma jarra durante muitos annos, só com a cabeça defora durante esse longo periodo. Essa exhibição foi prohibida peloprefeito.

Por estes casos se verá a razão por que o crime de roubar creanças éconsiderado pelos tribunaes chineses como dos mais graves, e porque os seusautores são tão detestados e execrados pelo povo.

1 Autor e traductordizem sempre:—autoplastia,—e realmente esta palavraemprega-se tambem no sentido contrario ao que a sua formação etymologicaindica. Mas porque não usar antes dapalavra:—alloplastia,—neste caso mais exacta, comodisemos:—allochézia, allochromasia, allomorphia, etc.? É certo poremque se tracta, no artigo, de operações alloplasticas eautoplasticas. (L. C.)

2 E em toda a China.(Nota do traductor.)

3 Jornal chinezpublicado no norte. (Nota do traductor.)

4 Na China é com umpincel que se escreve. (Nota do traductor.)

5 Nas minhas notasencontro um caso interessante de autoplastia teratologica que me foireferido pelo sr. Eduardo Marques, interprete sinologo da repartição doexpediente sinico de Macau. Appareceu n'aquella cidade um curandeiro avender um unguento, cuja qualidade recommendada era sarar com notavelproficuidade qualquer ferimento. Como reclamo ao seu medicamento, cortavaas pernas a uma gallinha e a um pato com um rapido golpe de parão (termo deMacau que significa faca de cortar lenha ou carne) e com a mesma rapidezadaptava as de um nas do outro, rodeando a junctura com uma grandecataplasma do seu unguento e com uma boa ligadura. Postos os animaes emcapoeira apropriada, onde lhes não era possivel o movimento, ao fim dealguns dias as pernas de um estavam perfeitamente adaptadas ás do outro.Não ha duvida que o principio da autoplastia extensivo ao systema osseo,recommendava o unguento, que naturalmrntc não tinha influencia alguma naoperação. (Nota do traductor.)

Nota do transcritor:

Foram corrigidos diversos erros tipográficos.Na lista que segue estão as alterações mais importantes.

OriginalCorrigido
taliacocãotaliacoção
IaliacotiusTaliacotius

		
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