Poetas do Minho I - João Penha

Poetas do Minho I - João Penha
Title: Poetas do Minho I - João Penha
Release Date: 2010-05-15
Type book: Text
Copyright Status: Public domain in the USA.
Date added: 26 March 2019
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Notas de transcrio:

Nesta edio em HTML esto disponveis duas verses do texto.

A primeira contm o texto com a grafia de acordo com o original impresso em 1894. A segunda, contm uma variante com a grafia actualizada para portugus europeu.

 

Ortografia original.

(Ver Ortografia actualizada.)

 

ALBERTO PIMENTEL


Poetas do Minho


I

JOO PENHA

 

 

 

 

BRAGA

CRUZ & C.—EDITORES
MDCCCXCIV

 

 

 

 

POETAS DO MINHO

 

 

 

 

BRAGA
TYP. MINERVA COMMERCIAL
Jos Maria de Souza Cruz
1893

 

 

 

 

ALBERTO PIMENTEL


Poetas do Minho


I

JOO PENHA

 

 

 

 

BRAGA

LIVRARIA ESCOLAR DE CRUZ & C.
EDITORES

 

 

 

 

Aquelle meu espirito opulento,
Que vivia na luz dos sonhos bellos,
Jaz ha muito nas ruinas dos castellos,
Que no ar edifica o pensamento.

Joo Penha.

 

 

... Quem publica um livro no o faz para o ler, publica-o para que os outros o leiam. Quer, portanto, produzir um effeito qualquer, effeito que, em todo o caso, no pode ser o do somno: para este ha o opio, a belladona e o Codigo do Processo Civil.

Joo Penha.

 

 

I

Ha quinze dias, Joo Penha e eu, sentados no mesmo banco doamericano, vinhamos do Senhor do Monte para Braga, e conversavamos delitteratura. Nomes de auctores, nomes de livros, recordaes dispersas, dotempo em que elle redigia a Folha em Coimbra e eu lhe enviava do Portoalgum insignificante auxilio de collaborador, passavam rapidamente naprecipitao{8} tumultuante do dialogo, a cada momentointerrompido pelas paragens do tramway, pela entrada e saida depassageiros, pela voz auctoritaria do conductor, que explicava em dialectocalaico:

—Bai cheio. Num ha logar.

Tendo Joo Penha alludido a mais de um dos poetas, que constituiram aconstellao academica da Folha, para entrelembrar casos e anecdotas dabohemia coimbr, disse-lhe eu de repente:

—Por que no escreve as suas memorias de Coimbra?

—No tenho tempo, respondeu elle. Encheriam tres volumes.

Tres volumes, de certo, porque Joo Penha foi o chefe de um cenaculonumeroso, que viveu na alegria e nas lettras, que teve aventuras e triumphos, eque legou aos cursos subsequentes uma gloriosa historia ainda hoje rememoradacom prestigio na tradio academica.{9} Elle, erguidono pedestal que o voto unanime dos seus contemporaneos lhe havia consagrado,via do alto, como um idolo, toda a nervosa multido da academia, que o adorava,observava todas as evolues caprichosas d'essa legio gentilissima de rapazestalentosos, que se moviam em torno d'elle, conhecia todos os segredos dabiographia de uma gerao, que ha de ficar eternamente lembrada. Tres volumes,pelo menos, e no seriam de mais.

Mas percebe-se que lhe custe metter hombros a um labor de reconstrucohistorica em que a penna seria como um estilete a revolver dolorosamente ocorao saudoso do escriptor. Eu mesmo, que apenas segui de longe toda essaaltivola mocidade academica, ouvindo reproduzida a distancia a sua voz nophonographo litterario da Folha e de uma boa dezena de poemas, eu quesenti rolar at mim a lava candente do vulco sem assistir{10} s tempestades explosivas da cratera, eu proprioexperimento a vaga nostalgia da Coimbra d'aquelle tempo vendo envelhecer emLisboa, na prosa da burocracia, do fro, do professorado e do parlamento, ospoetas que ha vinte annos constituiam a ala victoriosa dos novos commandada porJoo Penha.

E, mais infelizes ainda, os que hoje no fazem leis, nem minutas, nemaggravos, nem compendios, dormem prematuramente o somno da morte na apotheseserena, sem invejas, mas tambem sem desilluses, d'aquelles que, como GonalvesCrespo, brilharam pelo claro do seu talento, e passaram como um meteorofugitivo.

Tive Gonalves Crespo por companheiro na Redaco da Camara dos Pares. O seuespirito doirava-se ainda de um reflexo de alegria, sem constrangimento, queera como que o ultimo elo da sua tradio academica. Tinha passado de Coimbrapara Lisboa serenamente,{11} sem tempestades da vida,que envelhecem a alma antes do alvejar da primeira c. Na paz domestica do seular, a morte foi como um salteador que surprehende um viajante a dormir napousada, e o estrangula entre dois braos de ferro n'um momento. Os outros queficaram ainda, so como as arvores no outomno, que dia a dia vo sendosacudidas e abaladas pela nortada agreste, que annuncia o inverno.

difficil adivinhar hoje na melancolica indiferena de Simes Dias, quepassa atravez de Lisboa com o ar desleixado de um provinciano aborrecido,aquella brilhante alma meridional do poeta das Peninsulares, ondecantavam serenatas da Andaluzia e rouxinoes do Mondego.

Candido de Figueiredo, cuja musa era das mais crentes, embora no fosse dasmais vulcanicas, canado de repartir os restos da sua mocidade entre a cthedrade professor{12} e a Secretaria da Justia, correu aoencontro da velhice, denominou-se voluntariamente Caturra, atirou-se squestes de philologia, e conseguiu tornar-se rabujento contra os que escrevemaereonauta com um e superfluo.

Este correctissimo poeta da Folha hoje um suicidio ambulante.Mata-se a ensinar a lingua portugueza a quem a no quer saber. J um ministeriolhe receitou, como distraco, o Governo Civil de Villa Real. Candido deFigueiredo viu o Maro resplandecente de neve, e no o cantou. Apenas recolheua Lisboa, deu-se pressa em publicar Novas lices praticas da linguaportugueza.

No era poeta, poeta de fazer versos, embora tivesse comeado por ahi, comotodos, mas tinha assomos de graciosa imaginao quando romantisava naFolha as lendas do alto Alemtejo, um que s doutorou em direito, eestuda e encalvece como todo o bom lente, e apenas sai dos braos de Minervana{13} Universidade para os braos do senhor JosLuciano no Parlamento.

Esse, Jos Frederico Laranjo, to amante de fallar nos palratorios deCoimbra, vai estando to mudado hoje, que j ninguem treme de medo quando ellepede a palavra na camara.

—E Junqueiro? o nosso astral Guerra Junqueiro? perguntar-me-ha oluciolante apostolado que o rodea na cervejaria do Camanho.

Junqueiro, se houvessemos de dar credito a todas as suas apprehensespathologicas, est precocemente chegado, pelo soffrimento, ao occaso davida.[1] Sinceramentedesejo que os factos venham desmentir esta apprehenso.

Mas Guerra Junqueiro, meus senhores,{14} era naCoimbra d'aquelle tempo, na Folha principalmente, a promessa florescentede um lyrico primoroso, depois transviado, e a meu vr atormentado, pelapreoccupao constante de reformar a esthetica[2], a technica[3], o olympo dos romanticos[4], o paraizo dos catholicos[5], de fundar escola e de attingir a perfeiosuprema no seu melhor livro, que, segundo o seu proprio conceito, so osSimples.

E talvez no sejam.

Em Coimbra, Guerra Junqueiro era, como{15} todos osoutros, um satellyte que gravitava em torno de Joo Penha, o chefeincontestado, antes adorado, do cenaculo, da bohemia, e da Folha.

O tempo rolou a sua pesada mole por sobre as illuses d'esses rapazes queeram ento a fina flr da gerao academica. D'elles, os que no esto aindavelhos por fra, comeam a descair na tristeza, no direi do occaso da vida,como apprehensivamente affirmou de si mesmo Guerra Junqueiro, mas daexperiencia dura do mundo.

Joo Penha, o primaz da tribu, advogado em Braga, trabalha honestamentepara sustentar a sua familia. Est ao corrente de todas as novidadeslitterarias que a Frana inventa e exporta, porque as recebe directamente dePariz em primeira mo, mas atura todos os dias, no seu escriptorio, uma chusmade clientes, que s vezes, o que o contraria muito, o assaltam em plena rua, jdepois{16} d'elle ter fechado o seu escriptorio s duashoras da tarde, invariavelmente.

Outro dia, Joo Penha ia para o Bom Jesus do Monte, emservio—disse-me elle—s sete horas da manh. A seu lado, notramway, um demandista estopante gritava para vencer a dureza de ouvidodo advogado.

—O que eu quero, berrava o cliente, ganhar a queston do rego.Porque, snr. doutor, no rego que est a grande maroteira d'ella. (Ella era aparte contraria, uma mulher).

Questo d'aguas: a mais generalisada especie de litigios no Minho.

Joo Penha, de charuto ao canto da boca, ouvia imperturbavelmente resignadoe silencioso. Os outros passageiros sorriam disfaradamente das phrasesequivocas do demandista. Filado pelo cliente, Joo Penha era, n'aquella hora,sob o cu azul, radioso de sol, uma victima do Direito, que legisla sobre regose outras coisas mais;—do Direito que{17} ellepodera amenisar em Coimbra com as satyras escriptas na aula, com os sonetospublicados na Folha, com a bohemia alegre das Camllas e doHomem do gaz.

Agora, em Braga, o Direito esmagava-o como a clava de Hercules. Fazia d,fazia pena vr Joo Penha torturado nos colmilhos de um litigante obsesso, aquem elle no podia responder, com um repente de Bocage, n'um epigrammavingador.

No me atrevi a arrancar Joo Penha das garras do cliente. Mas volta doBom Jesus, tornando a encontrar-nos no mesmo americano, interpuz-me aodemandista e a elle, e conversamos de varia litteratura,—muralha da ChinaContra a qual esbarraram, infructiferamente, duas investidas do brcaroChicaneau, que parecia recortado dos Plaideurs de Racine.

Aqui esta no que veio a dar aquelle bello espirito do maior improvisador edo maior bohemio da Coimbra de ha vinte annos!{18}

salgueiraes do Mondego, lamentai-o! musa alegre da tasca dasCamllas, cobre de luto a tua face msta! fina flr dos rapazes d'essetempo, chorai por elle e.... por vs!

Colhi em Braga informaes sobre o viver de Joo Penha transformado. Tem,como advogado, uma grande clientella posto no v nunca ao tribunal. Mas a suacompetencia em questes do civel no soffre rivalidade. Escrevendo nosprocessos, um jurisconsulto de primeira ordem.

s duas horas da tarde fecha impreterivelmente o escriptorio. Os clientesvoltaro, se quizerem, no dia seguinte. Mas voltam sempre.

noite, Joo Penha, invariavelmente de luvas pretas, monoculo posto,frequenta a confeitaria do Anacleto rua de S. Marcos. Uma coincidencialeva-me a suspeitar que Joo Penha rivalisa na gulodice de bolos finos com oglorioso Sampaio da Revoluo, de veneranda memoria. Vindo todos osannos Povoa{19} de Varzim, na epoca de banhos, naconfeitaria contigua ao Caf Chinez que elle apparece s noites, semprede luvas, correctamente vestido, sobraando s vezes um pacotinho de doces.

Que ao menos o saboroso blo de cco possa adoar as horas amargas da suabanca de advogado!

—Snr. dr., dizia-lhe o demandista quando todos apeiamos doamericano no Campo de Sant'Anna, olhe que a queston do rego tem furo.Num m'a avandone.

E Joo Penha, sorrindo, voltado para mim, repetia-me:

—No se esquea de lr a Nature de Hollinat. soberba!

salgueiraes do Mondego, lamentai-o! musa alegre da tasca dasCamllas, cobre de luto a tua face msta! fina flr dos rapazes d'essetempo, chorai por elle e... por vs!{20}
{21}

II

Na individualidade litteraria de Joo Penha ha a distinguir o poeta dabohemia, e o poeta do amor.

So dois homens reunidos n'um unico homem. O primeiro o estudante quefrequenta de noite as tascas de Coimbra, celebrisando-se nas libaes e nosimprovisos; que canta os paios do Alemtejo, o presunto{22} de Lamego e os falernos da Beira; que satyrisa os lentese adora a Cabula; que v formar-se em torno de si o numeroso cenaculo a quepreside com o applauso e a admirao da academia inteira, cuja alma, cheia dealegria e de mocidade, elle consubstancia n'uma saliente concretisao pessoal.

Os seus versos, as suas anecdotas de bohemio noctivago correm ainda hoje natradio universitaria, impregnados d'esse fugitivo sachet de vidaantiga, que a gloria melancolica dos velhos e o ideal ambicioso dos novos.

A baiuca da Camlla, sem elle, ficou solitaria como um templo vasio.

Os que foram da gerao de Joo Penha ainda de certo o recordam hoje demonoculo no olho, capa traada, n'uma attitude elegante e vigorosa de Apollo deBelvedre, cantando no templo, sob um imaginario baldaquino de folhas de parraverdejando esmeraldas, a alegria eterna da alma rubra do alcool.{23}

Oh vs, que do canto sois velhos freguezes,
Ouvi d'estas lyras o mlico emprego!
Ns somos as gmas, os bifes inglezes,
Os paios das filhas do claro Mondego.

Sorri-nos a vida nos calices cheios.
Dos roixos falernos das parras da Beira;
Sorri-nos a Cres dos tmidos seios;
Sorri-nos dos bosques a Venus ligeira.

Nos mostos papyros da sciencia moderna
A droga se encontra que ao somno convida;
Queimmol-os todos, que s na taberna
Os livros se encontram da sciencia da vida.

Ao vento os cabellos! por montes e valles
Corramos no passo das gregas choras!
Bachantes das praas, vibrae os cymbales!
Abri-nos as portas, gentis Galathas!

A lenda das noites das Camllas, personificada em Joo Penha, subsistiu comouma

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