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Os Trabalhadores do Mar

Os Trabalhadores do Mar
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Author: Hugo Victor
Title: Os Trabalhadores do Mar
Release Date: 2018-09-13
Type book: Text
Copyright Status: Public domain in the USA.
Date added: 27 March 2019
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TRABALHADORES DO MAR

POR

VICTOR HUGO

traduzido por Machado de Assis

RIO DE JANEIRO
TYP.—PERSEVERANÇA—RUA DO HOSPICIO N. 91.
1866.

Indice


PRIMEIRA PARTE

O Sr. Clubin.


Dedico este livro ao rochedo de hospitalidade e de liberdade, a estecanto da velha terra normanda onde vive o nobre e pequeno povo do mar,á ilha de Guernesey, severa e branda, meu actual asylo, meu provaveltumulo.

V. H.


A religião, a sociedade, a natureza: taes são as tres lutas do homem.Estas tres lutas são ao mesmo tempo as suas tres necessidades; precisacrer, dahi o templo; precisa crear, dahi a cidade; precisa viver, dahia charrua e o navio. Mas ha tres guerras nestas tres soluções. Sahede todas a mysteriosa difficuldade da vida. O homem tem de lutar como obstaculo sob a forma superstição, sob a fórma preconceito e sob afórma elemento. Triplice ananke pesa sobre nós, o ananke dos dogmas, oananke das leis, o ananke das cousas. Na Notre Dame de Paris, o autordenunciou o primeiro; nos Miseraveis, mostrou o segundo; neste livroindica o terceiro.

A estas tres fatalidades que envolvem o homem junta-se a fatalidadeinterior, o ananke supremo, o coração humano.

Hauteville-House, março de 1866.


LIVRO PRIMEIRO

Elementos de uma má reputação


I

PALAVRA ESCRIPTA EM UMA PAGINA BRANCA

O christmas (Natal) de 182* foi notavel em Guernesey. Cahio nevenaquelle dia. Nas ilhas da Mancha, inverno em que ha neve, é memoravel:a neve é um acontecimento.

Naquella manhã de christmas a estrada que orla o mar de Saint-PierrePort au Valle assemelhava-se a um lençol branco: nevára desde a meianoite até o romper do dia.

Pelas nove horas, pouco depois de nascer o sol, como não era aindaoccasião dos anglicanos irem á igreja de Saint-Sampson e os wesleyanosá capella Eldad, o caminho estava quasi deserto. Na parte da estradacomprehendida entre a primeira volta e a segunda havia apenas tresviandantes, um menino, um homem e uma mulher.

Estes tres viandantes, caminhando separados, uns dos outros, não tinhamvisivelmente relação alguma entre si. O menino, de cerca de oitoannos parára e olhava para a neve com curiosidade. O homem, seguindoatras da mulher, uns cem passos, dirigia-se como ella, para o lado deSaint-Sampson.

Era elle moço ainda e parecia ser operario ou marinheiro. Vestia asroupas ordinarias, isto é, uma grossa camisa de panno escuro e umacalça de pernas alcatroadas, o que parecia indicar que, apezar dafesta, não iria á igreja. Os grossos sapatos de couro crú e solastaixadas de ferro deixavam sobre a neve uma marca, que mais seassemelhava a uma fechadura de prisão que ao pé de um homem.

A viandante, essa evidentemente trajava roupa de ir á igreja;envolvia-se em uma comprida manta acolchoada de estofo de seda preta,debaixo da qual apertava-lhe faceiramente o corpo um vestido de fazendada Irlanda com listas brancas e côr de rosa, e, se não fossem as meiasvermelhas, tomal-a-hiam por uma parisiense. Caminhava com desembaraçoe viveza; e pelo andar, que mostrava não lhe ter ainda pesado avida, conhecia-se que era moça. Tinha aquella graça fugitiva queindica a mais delicada transição, a adolescencia, a mistura dos douscrepusculos, o principio de uma mulher e o fim de uma menina.

O homem não reparava nella.

De subito, perto de uma mouta de azinheiras, que fórma o angulo de umahorta rustica, no lugar denominado Basses Maisons, voltou-se a moça, eesse movimento chamou a attenção do homem.

Parou, pareceu reparar nelle um instante, abaixou-se, e o homem julgouvêl-a escrever com o dedo alguma cousa na neve. Levantou-se e poz-se denovo a caminho com passo mais apressado, voltou-se ainda, mas desta vezrindo, e desappareceu pela esquerda, seguindo o carreiro guarnecido desebes, que leva ao castello de Lierre. O homem, quando ella se voltoupela segunda vez, reconheceu Deruchette, linda mocinha do lugar. Masnão sentio necessidade alguma de appressar o passo.

Alguns instantes depois estava junto á mouta de azinheiras no angulo dahorta. Já não pensava na passageira, e é provavel que se nessa occasiãopulasse um golfinho no mar ou um cardeal nos arbustos, passaria como olhar fixo no cardeal ou no golfinho. Casualmente tinha os olhosbaixos, e assim os levou machinalmente ao lugar em que parára a menina.Dous pésinhos ahi estavam impressos e ao lado delles a palavra escriptapor ella: Gilliatt.

Era este o nome delle.

Chamava-se Gilliatt.

Ficou por muito tempo immovel, contemplando o nome, os pésinhos, aneve; e depois continuou pensativo o seu caminho.


II

O TUTÚ DA RUA

Gilliatt residia na parochia de Saint-Sampson, onde não era estimado ehavia razões para isso.

Em primeiro lugar, morava em uma casa mal assombrada.

Acontece algumas vezes em Jersey e Guernesey, no campo e até na cidade,que, ao passar por um lugar deserto ou por uma rua muito habitada,vê-se uma casa, cuja entrada está obstruida. O azevinho cresce á porta,as janellas do rez do chão estão fechadas por feios emplastros detaboas pregadas; as dos andares superiores estão fechadas e abertasao mesmo tempo: ha ferrôlhos, mas não ha vidros. No pateo, se o ha,alastra-se a herva e cahem os muros; se ha jardim, nascem a ortiga, oespinheiro, a cicuta; raros insectos esvoaçam. Racham-se as chaminés,o tecto se abate; o que se vê dos quartos está arruinado, a madeirapodre, a pedra carcomida; cahe o papel das paredes. Pode-se estudarahi os antigos gostos do papel pintado, os gryphos do imperio, assanefas em fórma de crescente do Directorio, os balaustres e cippos deLuiz XVI. A espessura das téas de aranha, cheias de moscas, indicam aprofunda tranquillidade em que vivem aquelles insectos. Algumas vezesvê-se um pucaro quebrado sobre uma taboa.

É uma casa mal assombrada. O diabo apparece lá durante a noite.

A casa, como o homem, pode tornar-se cadaver; basta que uma superstiçãoa mate. Então é terrivel.

Essas casas mortas não são raras nas ilhas da Mancha.

As populações campesinas e maritimas não vivem tranquillas a respeitodo diabo. As da Mancha, archipelago inglez e littoral francez, tem arespeito delle noções muito precisas. O diabo possue delegados por todomundo. É certo que Belphegor é embaixador do inferno em França, Hutginna Italia, Belial na Turquia, Thamuz na Hespanha, Martinet na Suissae Mammon na Inglaterra. Satanaz é um imperador, como outro qualquer.Satanaz Cesar. A casa delle é muito bem servida: Dagon é o saquetario;Succor Benoth, chefe dos eunuchos; Asmodeu, banqueiro dos jogos; Kobal,director do theatro; Verdelet, grão-mestre de ceremonias e Nybbas bobo.Wiérus, homem de sciencia, bom estrygologo e demonographo distincto,chama Nybbas—o grande parodista.

Os pescadores normandos da Mancha precisam aprecatar-se quando andamno mar, por causa das artes do diabo. Por muito tempo acreditou-se queS. Maclou habitava o grande rochedo quadrado Ortach, situado ao largoentre Aurigny e Casquets, e muitos velhos marinheiros de outros temposaffirmavam tel-o visto não poucas vezes sentado e lendo um livro. Porisso os maritimos, quando passavam, ajoelhavam-se muitas vezes diantedo rochedo Ortach, até que um dia dissipou-se a fabula e esclareceu-sea verdade. Descobrio-se e sabe-se hoje que quem habita aquelle rochedonão é um santo, mas sim um diabo, chamado Jochmus, que por muitosseculos teve a malicia de fazer-se passar por S. Maclou. Demais, apropria igreja cahe em taes enganos. Os diabos Raguhel, Oribel e Tobielforam santos, até que em 745 o papa Zacarias, tendo-lhes tomado o faro,deitou-os fóra. Para fazer taes expulsões, que são muito uteis, énecessario ser muito conhecedor de diabos.

Conta a gente velha da terra, mas estes casos pertencem ao seculopassado, que a população catholica do archipelago normando estiveraoutr'ora, bem a seu pezar, mais em communicação com o diabo do que apopulação huguenote. Ignoramos a razão, mas a verdade é que a minoriacatholica andou outr'ora muito incommodada por elle.

Affeiçoára-se aos catholicos e procurava frequental-os, o que leva acrer que o diabo é antes catholico que protestante.

Uma de suas mais insupportaveis liberdades era visitar á noite osleitos conjugaes catholicos, quando os maridos dormiam de todo, eas mulheres, a meio. Disto resultavam equivocos. Patouillet pensavaque Voltaire nascera assim. Não é inverosimil. É caso perfeitamenteconhecido e descripto nos formularios de exorcismo sob o titulo deerroribus nocturnis et de semine diabolorum.

O diabo fez violencias destas especialmente em Saint-Hélier, em fins doseculo passado: é provavel que para punição dos crimes da revolução.As consequencias dos excessos revolucionarios são incalculaveis.Fosse como fosse, essa apparição possivel do demonio durante a noite,quando reina a escuridão e todos dormem, inquietava muitas mulheresorthodoxas. Dar nascimento a um Voltaire não é cousa agradavel. Umadellas, assustada, foi consultar o confessor sobre a maneira dedesfazer-se em tempo o quiproquo. O confessor respondeu: para saber seestá com o diabo ou com seu marido, apalpe-lhe a cabeça e se encontrarpontas, pode estar certa....—de que? perguntou a mulher.

A casa em que morava Gilliatt tinha sido mal assombrada e já não era;portanto, tornava-se mais suspeita; é sabido que, quando um feiticeirovem habitar uma casa visitada pelo diabo, este, julgando-a bemguardada, tem a delicadeza de não voltar, salvo o caso de ser chamado,como medico.

Chamava-se a casa 0 tutú da rua. Era situada na ponta de uma linguade terra ou antes de rochedo, que formava uma pequena angra de bastanteprofundidade na enseada de Houmet Paradis. A casa estava sósinha nessaponta, quasi fora da ilha, tendo apenas a terra sufficiente para umpequeno jardim ás vezes inundado por occasião das aguas vivas.

Entre o porto de Saint-Sampson e a enseada de Houmet Paradis ha umagrande coluna, sobre a qual levanta-se um amontoado de torres e dehera chamado o castello do Valle ou do Archanjo, de sorte que deSaint-Sampson não se via o tutú da rua.

Não são raros os feiticeiros em Guernesey. Exercem a profissão emcertas parochias, apezar de vivermos no seculo dezenove. Praticamacções verdadeiramente criminosas. Fazem ferver ouro. Colhem hervas ámeia noite. Olham de travez para o gado. Consultam-n'os; elles mandambuscar em garrafas a agua dos doentes, e dizem em voz baixa: aagua parece bem triste. Affirmou um feiticeiro em Março de 1857, quena agua de um doente havia sete diabos. São temidos e temiveis. Hapouco tempo um delles enfeitiçou um padeiro e mais o forno. Outrotem a perversidade de fechar e lacrar uma porção de sobrecartas, semhaver nada dentro. Outro chega ao ponto de ter em casa, em cima de umataboa, tres garrafas com um B em cada uma. Estes factos monstruosos sãoconhecidos. Alguns feiticeiros são complacentes, e por dous ou tresguinéos incumbem-se de soffrer as nossas molestias. Rolam e gritam emcima da cama. Enquanto elles se estorcem diz o doente: «E esta! jáestou bom!» Outros curam todas as molestias amarrando um lenço ao redordo corpo do doente. É um remedio tão simples que admira não se terainda ninguem lembrado delle.

No seculo passado o tribunal real de Guernesey collocava-os sobre umaporção de achas de lenha e queimava-os vivos. Presentemente condemna-osa oito semanas de prisão, quatro a pão e agua e quatro no segredo,alternando. Amant alterna catenœ.

A ultima queima de feiticeiros em Guernesey foi em 1747, sendo theatrodo espectaculo a praça de Bordage, que de 1565 a 1700 vio queimarem-seonze feiticeiros. Em geral esses culpados confessavam seus crimes: erampara isso ajudados pela tortura.

A praça de Bordage prestou serviços á sociedade e á religião.Queimaram-se ahi os hereticos. No tempo de Maria Tudor, entre outroshuguenotes, queimou-se uma mãe e duas filhas: a mãe chamava-sePerrotine Massy. Uma das filhas estava gravida e teve o successo sobreo brazeiro.

A chronica diz: Arrebentou-lhe o ventre. Sahio desse ventre um meninovivo; o recem-nascido rolou na fogueira, um tal House apanhou-o. Obailio, Helier Grosselin, bom catholico, mandou atirar a criança aofogo.


III

PARA TUA MULHER, QUANDO TE CASARES

Voltemos a Gilliatt.

Contava-se na terra que uma mulher, tendo comsigo um menino, vieraem fins da revolução habitar Guernesey. Era ingleza, ou talvezfranceza. O nome della, qualquer que fosse, a pronuncia guernesianae a orthographia dos camponezes transformaram em Gilliatt. Viviasosinha com o menino, que, diziam uns, era seu sobrinho, outros, filho,outros neto e, outros, cousa nenhuma. Possuia um dinheirinho, de quevivia pobremente. Comprara um pedaço de terra na Sergentée e outro emRoque-Crespel, perto de Rocquaine. A casa tutú da rua, estava nessetempo mal assombrada. Havia mais de trinta annos que ninguem moravanella. Cahia aos pedaços. O jardim sempre innundado pelo mar, já nadaproduzia.

Além dos ruidos nocturnos e das luzes, a casa era particularmenteatterradora por isto: se á noite se deixava sobre a lareira um novellode lã, agulhas e um prato cheio de sopa, no dia seguinte de manhãencontrava-se a

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